quarta-feira, 14 de maio de 2014

Investimentos de Mentira


Investimentos de mentira... Talvez alguns fiquem meio chateados comigo, mas irei falar sobre eles.

 

E o que são investimentos de mentira?

Negócios que parecem investimentos, mas na realidade não são! Parece fácil identificá-los falando deste jeito, mas somos bombardeados pela propaganda de uma forma que a pessoa realmente acredita estar fazendo um bom negócio e não há quem a convença do contrário. Tentarei hoje através da argumentação por exemplos e com números!

 

First things first, quais são os investimentos de mentira?
Irei tratar de dois grandes conhecidos do público: título de capitalização e consórcio.

 

Título de Capitalização
Não é poupança, não é investimento, não é absolutamente nada!
"Você economiza dinheiro e concorre a prêmios"
Concorrendo a prêmios semanais, mensais e de até R\$5.000.000,00! E ao final do plano você resgata todo o dinheiro, e MELHOR corrigido pela Taxa Referencial (TR).
Isso significa que você dará seu dinheiro ao banco e ele o usará em outras coisas como emprestar as aplicações dos títulos a outras pessoas com juros, é claro. Sim, você dará seu dinheiro ao banco, este é o termo correto. Pois até o final do plano, o comprador do título não pode resgatar seu dinheiro (ou pode se pagar uma taxa de 5% ou mais).

Se esta pessoa aplicar o dinheiro na poupança, que não é um investimento bom, receberá diversas vezes mais do que o mesmo aplicado na poupança, que rende 6,17% ao ano + TR, ou seja, só na comparação direta a poupança paga 6% de juros a mais por ano, parece pouco? Vamos ao exemplo.

Elaborei a tabela abaixo para apresentar um comparativo direto entre o título, a poupança e o ganho da aplicação sobre o embuste, considerando um depósito de R\$100,00 por mês em cada uma das "aplicações". Estou colocando diretamente o valor dos depósitos + juros, ou seja, o montante a cada ano, para efeito de cálculo considerei a TR como sendo 1% ao ano.


Anos
Título de Capitalização
Poupança
Ganho da Poupança
1
R\$ 1.206,52
R\$ 1.247,64
R\$ 41,12
2
R\$ 2.425,16
R\$ 2.587,74
R\$ 162,58
3
R\$ 3.656,04
R\$ 4.027,14
R\$ 371,10
4
R\$ 4.899,29
R\$ 5.573,21
R\$ 673,92
5
R\$ 6.155,03
R\$ 7.233,85
R\$ 1078,82

 

Rapidamente podemos perceber que a poupança é melhor em qualquer cenário. Apenas para destacar existem algumas "modalidades" deste embuste que pagam 10% se o comprador permanecer com o título por 5 anos ou mais. Mesmo se considerarmos isso a poupança continuará rendendo mais que o título. Lembrando que a poupança posso sacar a qualquer momento E que ela é uma forma de investimento bastante "ruim", existem opções bem melhores com R\$ 100,00 mensais, como por exemplo, títulos do Tesouro Nacional.

Em geral, o grande atrativo dos títulos de capitalização são os sorteios semanais, mensais, quinzenais e diabo a quatro, que na verdade são pagos com os rendimentos auferidos pelo banco emissor com o dinheiro depositado. E como a chance de ganha-los é baixa, é como apostar na loteria, só que com uma aposta maior e que você recebe de volta depois de alguns anos...

 

Consórcios – A grande jogada
Muitos amigos, colegas e conhecidos são compradores do que chamo a melhor jogada de propaganda da face da terra. Veja como funciona:
  • Você entrega a um banco (ou vendedor do consórcio) uma quantia de dinheiro por mês, este valor é composto de três parcelas: fundo comum, taxa de administração e fundo de reserva.
  • O banco guarda seu pagamento do fundo comum, pega para si, a título de pagamento, a taxa de administração e fundo de reserva é guardado em outra conta no caso de emergência (Ah! Tá bom). Alguns bancos cobram também seguro, que serve para evitar inadimplentes.
  • Depois de verificar o pagamento de todos os membros do Consórcio, o banco faz um sorteio de uma carta de crédito no valor total firmado em contrato dentre os adimplentes.
  • E assim vai até a quitação do Consórcio.
Para falar sobre o Consórcio vamos às palavras-chaves: fundo comum, taxa de administração e fundo de reserva. Ainda há o seguro, mas não o colocarei na conta. Ao final, um exemplo com números.
  • Fundo comum: tem por objetivo acumular recursos para a compra de um bem. Ele representa quase todo o valor da sua parcela, para calculá-lo basta dividir o valor do Consórcio pela quantidade de prestações.


  • Taxa de administração: já dito anteriormente, remunera o administrador do Consórcio. É geralmente apresentado no formato percentual, alguns valores típicos de mercado variam em 10% a 20%. Para calcular o valor da administração basta multiplicar o valor do Consórcio pela Taxa e dividir pela quantidade de parcelas.


  • Fundo de reserva: compõe uma reserva a ser usada em caso de emergência. Sinceramente, é mais uma maneira de remunerar o administrador do Consórcio, pois você não recebe essa parcela de volta ao final. Em geral é 5% do valor do Consórcio, o cálculo dela é feito de maneira semelhante ao da Taxa de administração. (Taxa * Valor total do Consórcio / Quantidade de parcelas).

Abaixo, elaborei uma tabela para um Consórcio com duração de 50 meses voltado a compra de um automóvel no valor de R\$ 30.000,00, com taxa de administração de 12%.

Consórcio
Valor do automóvel
R\$ 30.000,00
Duração do grupo (quantidade de parcelas)
50 meses
Fundo comum (mensal)
R\$ 30.000,00/ 50  = R$ 600,00
Taxa de Administração (mensal)
R\$ 30.000,00 *12%/ 50  = R$ 72,00
Fundo de reserva (mensal)
R\$ 30.000,00 * 5%/ 50  = R$ 30,00
Valor da prestação
R\$ 702,00

Bem, para início de conversa o Consórcio é um passivo, ou seja, ele produz gastos mensais a você. Segundo aspecto, quando entregávamos nosso dinheiro ao banco no caso do Título de Capitalização pelo menos rendia quase nada, agora o Consórcio faz pior: o banco cobra para guardar seu dinheiro, em miúdos, além de não te dar absolutamente nada, ele te cobra para guardar seu dinheiro.

"Ah, mas se eu for sorteado poderei adquirir meu carro/imóvel mais rápido"
Certeza? Se considerarmos esta parcela como investimento mensal na Poupança, em aproximadamente 3 anos, você acumulará este valor e se continuar juntando durante 50 meses, terá acumulado pouco mais de R\$ 40.000,00. Na opção de consórcio pagarás R\$ 35.700,00 por R$ 30.000,00 antecipados. Novamente, comparei com a poupança, se for comparar com um título de governo, ao final do prazo teríamos R\$ 44.200,00.

 
Conclusão
Nem um, nem outro são investimentos, nem deveríamos ter este nome, é incrível que nas propagandas destas duas modalidades o termo usado é investimento. Mas não são, nem um nem outro tem qualquer tipo de rentabilidade real e o consórcio, pior ainda, você é cobrado por mês. Algumas ressalvas, no cálculo do título de capitalização se considerarmos a inflação, seu rendimento é negativo (sim, você recebe menos dinheiro do que colocou), no caso do consórcio o efeito é ainda pior: em um cenário de inflação elevada o bem-objetivo do consórcio sobe de valor, exigindo que o sorteado aporte ainda mais valores para a compra do bem. E mesmo o atrativo dos prêmios no caso dos títulos de capitalização deve ser desconsiderado, a chance de ganhar é pequena e o investimento mensal nesta aposta é caro, mesmo recebendo o dinheiro de volta no final do prazo.

Como regra geral, nenhum dos dois tem qualquer valor como investimento, são passivos e são caros, contribuem em nada com sua saúde financeira. A compra de qualquer bem deve ser feita com base em objetivos claros e poupança mensal e não em sorte de ganhar prêmios milionários ou de receber a carta de crédito do consórcio no primeiro mês.